A Carne Nacional



Idalino Leão

A criação de gado faz parte da memória coletiva e do imaginário do mundo rural português. Foi assim, ao longo de varias décadas em muitas regiões do nosso país, a convivência entre humanos e ruminantes era, e é, uma forma de vida.

Hoje a sociedade mudou, o Homem mudou, os hábitos de vida e de consumo mudaram. Obviamente que todas as alterações vindas com a entrada na UE e os efeitos da globalização também se fizeram sentir no sector pecuário.
Mas e o consumidor final, qual o seu papel e como rege os seus hábitos?

O consumidor final é decisivo, são os seus hábitos e a sua conduta que vai decidir todo o resto, ou quase tudo. Hoje, a população quer um produto (Carne) que apresente uma boa qualidade e um bom preço. Ora, não há nada mais subjetivo do que estar dependente dos gostos de cada um, ainda assim, vai aparecendo um padrão. Hoje, a população quer que a carne seja, tenra, clara, com pouca gordura e barata…!!

Este conjunto de variáveis é difícil de reunir junto da pecuária nacional, pois é de uma forma geral um sector pouco organizado. A juntar a isto, existe outro Actor, a distribuição. Que salvo raras exceções, dá preferência a produtos essencialmente baratos, com origens onde os custos de produção e as exigências sanitárias são muito diferentes das nossas. Todos os dias milhares de toneladas de carne chegam a Portugal, com menos 25% (as vezes mais) de preço  ao que se pratica cá.

No meio de tantas dificuldades, existem também oportunidades que temos que saber explorar.
Uma País que tem raças autóctones de bovinos, ovinos e caprinos e suínos com características únicas capazes de agradar ao paladar do consumidor mais exigente.

Na região norte litoral, é onde esta a maior concentração de gado bovino de leite, onde de uma forma geral os agricultores sempre marginalizaram a capacidade produtiva de carne dos seus animais.
As explorações leiteiras da região podem também ter aqui uma oportunidade, mas é necessário que exista muita formação e pedagogia junto do agricultor, pois é muito diferente criar animais para leite e criar animais para carne. As técnicas de maneio e de arraçoamento são muito diferentes.

É também uma região, a exemplo de outras, que apresenta índices de população cada vez mais elevados na faixa litoral, deixando quase ao abandono o restante território. Território que apresenta condições naturais em termos geográficos para criação de gado, nomeadamente de pequenos ruminantes, mas não só. Contribuindo também para reorganização do território, e fixação de população. Pois atividade pecuária tem também esse contributo, pois obriga ao constante e permanente acompanhamento.

Este cenário de crise, pode também ser o cenário de criação de oportunidades de desenvolvimento de um sector. Encaramos o futuro próximo com um PDR 2020 que pode ser usado para reorganizar o sector.
 As dificuldades deste sector quase que se confundem com um modo de vida, tal a dimensão e a permanência das mesmas. Para além de todas as dificuldades estruturais e conjunturais, vão surgindo outras que em nada nos ajudam.
O sector pecuário vide tempos muito difíceis onde os efeitos da irresponsabilidade dos governantes europeus com o embargo russo se fazem sentir, e a consequente diminuição de pequenos agricultores com as recentes obrigatoriedades fiscais não vieram ajudar em nada a nossa dependência de carne.

Para aumentar ainda mais as dificuldades deste sector, principalmente nos agentes ligados a produção, teremos a curto prazo as consequências dos acordos comerciais entre a UE, Canada, e EUA.
No caso do acordo com Canada, já esta fechado, e no que toca ao sector pecuário nacional, é um mau acordo. A possibilidade de entrada de várias toneladas de carne de bovino e suíno vindo do outro lado do Atlântico é uma certeza. Mais uma vez, será o sector Agrícola a servir de moeda de troca para acautelar outro tipo de interesses económicos.

No caso dos EUA, as negociações ainda estão demoradas, e seria bom que os nossos governantes, as organizações do sector, bem como a sociedade civil fossem chamadas a pronunciarem-se sobre este tema. As consequências para todo sector, em particular a fileira da pecuária são demasiado serias para não se trazer o tema a discussão e de uma forma transparente se disse-se aos consumidores o que estão em causa!

Como pode o sector pecuário competir com regras, leis, técnicas de maneio e arraçoamentos tão diferentes?!

Importa planear e definir objetivos estratégicos em termos agrícolas. O sector pecuário pode ser um pilar de desenvolvimento e fixação de população.

É pois importante que se reorganize o sector, e acima de tudo que fale a uma só voz.

Este é um desígnio que depende unicamente dos agentes do sector que tem uma vez mais uma palavra a dizer.


Idalino Leão - Agricultor e Presidente da Cooperativa “ A Lavoura” de Paços de Ferreira


Fonte: Idalino Leão
Data de publicação: 2016-10-21 14:17:25

        

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