Úbere da Holstein



Para satisfazer as necessidades, seja por carência, seja por ganância, o ser humano é muito engenhoso, inventivo, e criativo, a ponto de narrarem os textos bíblicos, que foi expulso do Paraíso, porque, queria igualar ou até superar Deus.

História é história. Diz o provérbio que quem conta um conto aumenta um ponto, mas que somos algo excepcional, seja para o bem seja para o mal, é um facto. Nada nos dá mais prazer que dominar e manipular as “leis da Natureza”, indo ao requinte de impor aos outros que sou único (o que é verdade), e que sou o melhor (já pode ser presunção).

 

Sem presunção, quero aqui dar conta, que há mais de vinte anos, a glândula mamária das vacas da Raça Frísia-Holstein, ainda que mais volumosas, não tinham uma colocação tão perfeita junto à zona perineal. Em contrapartida, a porção anterior, ditos quartos anteriores, não arredondavam tanto, existindo na altura a superstição de que um úbere anterior alongado, em que a base se ligava ao abdómen em angulo muito grande (160 a 180 graus) seria indicador de fragilidade. A argumentação, baseava a lógica de que o edema ante e pós-parto, reduziria a longevidade da glândula mamária, com a fragilização do “ligamento anterior”. 

 

 

 

Todos gostamos de valorizar e vender a nossa mercadoria. Da mesma forma, procurarei desmistificar conceitos um tanto empíricos e baseados em superstição, que se arrastam na apreciação e discussão do tema.

Dos muitos melhoramentos zootécnicos na raça Holstein/Frísia, o úbere é o que tem tido maior transformação, sem que na sua evolução tenha existido uma manifesta influência do meio ambiente, como é caso da estrutura, da capacidade ou das pernas. O mérito deve-se às engenharias zootécnicas que pela selectividade de caracteres, criaram um ubere maior e com formas mais harmoniosas com vista à preservação da agressividade ambiental. A evolução passou ao longo dos tempos por diversas etapas, em que uma das primordiais foi o tamanho do úbere. Os uberes primordiais tinham em média um volume muito menor dos actuais (talvez metade), forma pedicular, com os quartos em forma de funil, e a maior parte das vezes providos de tetos compridos e carnosos.

Na demanda de mais leite, pensou-se que seleccionando para o tamanho do úbere, aumentaria toda a estrutura interna (mais ácinos, mais canais lactíferos, maior cisterna) e por conseguinte aumentaria a produção. De facto assim foi. Aumentou a produção, mas também aumentaram as dores de cabeça dos produtores, com uma descomunal incidência de casos de patologia da glândula mamária. Desde então, até aos dias de hoje, tem sido uma luta constante na construção de um úbere de grande produção e de uma qualidade que possa superar as adversidades do maneio e do ambiente.

O ambiente é imprevisível, nunca se sabe, quando e como os microrganismos vão atacar. Por isso mesmo, continua a haver mamites. É impossível criar um sistema imunológico perfeito, porque os seres vivos estão em constante evolução. Só resta nesta vertente ao ser humano continuar a “guerra” contra a “bicharada”.

No referente ao melhoramento da glândula mamária para o maneio, destacam-se:

1 - A força do ligamento suspensor, que a torna mais adaptada e aderente à parede abdominal

2 – O comprimento dos tetos, com um tamanho mais propício à ordenha mecânica e a menor agressividade ambiental. Neste parâmetro, já há algum exagero, uma vez que já aparecem tetos muito curtos.

 

3 – A colocação dos tetos. Certamente que muitos se lembrarão sobretudo dos tetos anteriores, implantados muito fora, o que dificultava a ordenha. Aqui aconteceu uma impensada situação aos zootécnicos – Seleccionaram para colocar o teto bem debaixo do quarto, mas não se aperceberam que havia correlação com a posição dos posteriores, o que levou ao aparecimento de tetos posteriores muito juntos, sendo hoje, estes, o problema de dificuldade na ordenha.

 

 

4 – Inserção do úbere posterior é outro dos triunfos do melhoramento. Havia também a noção que a largura era proporcional à altura, facto que às vezes eu não via (não era uma regra), mas que os grupos mundiais de estudo e aconselhamento focavam. O melhoramento do úbere posterior relegou para a história as variadas formas de escudete. Sim escudete, provavelmente o leitor nem saiba o que isso é! O escudete era o formato referente à área que ia da vagina até ao local onde se podia começar a sentir o tecido glandular da mama. Este escudete variava em comprimento e largura e criava formas geométricas típicas que eram sistematizadas. A distância comum era mais de 32 centímetros (ainda hoje aparece este valor mas em animais de aptidão mista),contra os 22 a 23 centímetros de agora. Actualmente aparecem úberes posteriores tão altos que distam apenas 10 a 15 centímetros da vagina. Penso que os zootécnicos e geneticistas se devem quedar por aqui, para que não comecem a aparecer taras de melhoramento.

5 – O úbere anterior, parece-me que vem regredindo, isto é, em lugar de melhorar tem piorado. A forma como adere ao abdómen não é através de um ângulo grande. Em lugar de a base onde se implantam os tetos ser mais ou menos nivelada e se inserir suavemente, é convexa e dirige-se para a parede abdominal abruptamente. Este facto, dá muita das vezes, um formato de bola, aos quartos anteriores, com uma acentuada diminuição do comprimento, o que limita a expansão do tecido glandular para a frente, em suma, quartos anteriores mais curtos. Por experiência profissional, constato que as vacas de longevidade, tem muitas delas, úbere inferior horizontal com uma suave inserção dos quartos anteriores ao abdómen.

Perante o que venho observando, quero deixar um pedido aos responsáveis pela importação de genética e aos agentes comerciais: Procurem dar uma certa preferência a touros que melhorem a inserção anterior, sem descurar os outros pontos fortes alcançados e já aqui referenciados.

 

Não posso deixar de fazer ainda outro reparo. Este para os nutricionistas. Muitos descobriram a fórmula como minimizar o impacto da alimentação nas patas (claudicações), pelo que estão de parabéns. Porém o elevado número de quartos secos (“avariados”), de certeza que não é só devido às mamites, aos erros de maneio no desmame (“animais jovens mamados”), ou provavelmente a erros de selecção genética. Acredito, que também haverá alguma interferência da alimentação, por favor verifiquem se há ou não factor causa, corrijam-no.

 

Afonso, Mário Monteiro 


Data de publicação: 2014-04-05 00:00:00

3095 visualizações