A FALTA DE ESPERANÇA DO SECTOR LEITEIRO



O sector leiteiro nacional desde 2009 a Setembro de 2013 encontrava-se numa situação difícil em “espiral recessiva” constante (produção em queda, efectivo leiteiro em regressão, área destinada à alimentação do efectivo (silagem de milho) em queda, número de produtores de leite cada vez menor e com uma média etária elevada, uma maior dependência dos produtores de leite dos seus fornecedores, falta de liquidez e maior endividamento das explorações,) que tornou este sector “fora de moda”, em completo contraciclo com os mais diversos sectores da agricultura portuguesa. No entanto de Setembro de 2013 a Abril de 2014, (8 meses) fruto de alguma escassez de leite no mercado Spot (originário nas sobras das industrias Espanholas e Francesas) o produtor de leite nacional pôde respirar um pouco melhor, como já não respirava desde de 2007/2008. Sentia-se mais alegria e motivação para se continuar a produzir leite, era como uma nova esperança renascida que iria certamente ajudar a “tapar os buracos” feitos nos últimos anos.
Hoje, início de Verão, cai por terra todas as esperanças alimentadas durante o Inverno, com duas descidas de preços consecutivas que totalizam 4/5 cêntimos. Voltou a reinar a desmotivação no seio dos produtores de leite.
Importa perceber o porquê desta situação em Portugal, quando no centro e norte da Europa, se tem assistido a uma evolução de preços que necessariamente se te reflectido num aumento da quantidade de leite. A resposta dada pela Indústria para esta baixa é sempre a mesma (aqueles “malvados” da Distribuição com as suas importações, marcas brancas, descontos á posteriori, custos de prateleira, a crise e a Troika como não podia deixar de se relembrar. Triste “fado” o nosso de ser produtor de leite em Portugal.
Tudo isto leva-nos a meditar sobre as verdadeiras razões para tal acontecimento. O peso negocial do produtor de leite, mediante uma cadeia tão monopolista, é tão reduzido, que por vezes parece negativo. E aqui era importante prevalecer o espírito, os valores e os princípios cooperativos e associativos (que me parece não existir na sua verdadeira acepção da palavra, em Portugal!).
Não podemos de deixar de reparar que as preocupações dos grandes industriais de leite no centro e norte da Europa, na procura da rentabilização dos grandes investimentos feitos ao longo dos últimos anos na área da inovação, a criação de maior valor acrescentado, que oferecem segurança alimentar para poderem explorar os novos mercados emergentes de consumidores lácteos, que na sua história recente têm tido problemas de segurança e rastreabilidade alimentar (China e outros). Têm ainda procurado criar e reforçar modelos de governação das suas organizações onde os produtores se sentem representados, ouvidos, credibilizados e fidelizados, sentem “suas” as suas organizações industriais de lacticínios, aplicando o código cooperativo.
Quando olhamos para os preços no centro e norte da Europa, percebe-se que existe uma disputa entre as grandes empresas que actuam em mais do que um país na formação de preços e na captação de produtores para a sua organização, que tem sido muito positivo para estes produtores. Em contraciclo, quando olhamos para a Península Ibérica, parece que entramos noutro continente, onde reinam os preços baixos e a única luta que existe por produtores de leite, só acontece quando o famoso leite Spot é escasso e por sua vez demasiado caro, quando está barato, como acontece agora, serve de referência para os produtores locais. É caso para dizer que estamos mais perto de África que da Europa.
Em Portugal deve-se começar a olhar para o produtor de leite como uma “espécie em vias de extinção” onde reina o desânimo, a desconfiança, a descrença, mas sobre tudo reina a falta de esperança no futuro. Esta situação não é saudável, muito menos sustentável a longo prazo.
Por tudo isto, acredito que o futuro passa por:
o Mais responsabilidades para distribuidores e industriais na defesa da produção nacional, com a supervisão da Tutela;
o Criar ou reformular um novo modelo de governação de representatividade onde os produtores sejam chamados a intervir na discussão e clarificação do seu futuro;
o Criar um espírito de fidelização nas organizações, livre de amarras financeiras ou outras, onde cada produtor possa honrar os seus compromissos sem perder a sua capacidade de intervenção no seio da organização;
o Aproveitar os investimentos feitos e outros que possam acrescentar segurança, fiabilidade, inovação e maior valor acrescentado, não só para o mercado interno, mas essencialmente na procura de novos mercados que possam valorizar um maior retorno para o produtor de leite;
o Aproveitar os ténues sinais de recuperação económica e de confiança do consumidor para promover as nossas marcas consagradas onde haja garantias de que o preço que o consumidor paga é um preço que permite a sustentabilidade do produtor de leite nacional.
Por fim, em jeito de conclusão, é preciso dar esperança aos produtores de leite nacionais. Não podemos continuar a viver de grandes feitos do passado, e aplicar sempre a mesma sentença (baixar o preço de leite ao produtor) quando o mercado exige alternativas.
De que nos serve um passado que não cria futuro e esperança?
Não precisamos de inventar nada, “a roda está inventada”, basta seguir os exemplos de sucesso por essa Europa fora e adequa-los à nossa realidade.
Nunca é tarde para mudar de políticas, especialmente quando nos apercebemos que as actuais não estão a surtir o efeito da sustentabilidade de todo um sector, que certamente não sobrevirá a longo prazo sem produção local.

 

Pedro Pimenta
(Produtor de leite e dirigente cooperativo e associativo)

 


Data de publicação: 2014-07-08 14:54:16

        

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